Denise Zandonadi
dzandonadi@redegazeta.com.br
Um dia depois de anunciar um lucro R$ 1,466 bilhão no segundo trimestre de 2009, que significou uma queda de 81% em relação ao mesmo período de 2008, a direção da Vale comunicou ao mercado ontem que pretende construir uma usina siderúrgica em Ubu, município de Anchieta.
É praticamente no mesmo local onde a mineradora e a siderúrgica chinesa Baosteel pretendiam erguer um complexo de 10 milhões de toneladas de aço, projeto que foi abortado por dois motivos oficiais: uma negativa do governo estadual ao plano ambiental e a crise mundial.
Confira o especial sobre a Crise Econômica
Agora, ainda sem local exato definido e sem valor do investimento divulgado, a unidade da Vale, que não pretende investir sozinha, terá capacidade de produzir 5 milhões de toneladas de placas de aço por ano.
A informação foi dada ontem, durante entrevista coletiva dos diretores de finanças e relações com o mercado, Fábio Barbosa e de ferrosos, José Carlos Martins, respectivamente, para detalhar os resultados da empresa no segundo trimestre de 2009. A Companhia Siderúrgica de Ubu (CSU) é um dos três grandes projetos na área siderúrgica em que a Vale estará envolvida nos próximos anos no país.
Os outros dois projetos são a Aços Laminados do Pará (Alpa), que entrará em produção em 2013 para produzir 2,5 milhões de toneladas de produtos siderúrgicos; e a CSP, projeto das empresas Vale, Dongkuk e JFE para produzir de 3 a 6 milhões de toneladas de placas de aço.
Além desses projetos, a Vale, em parceria com a ThyssenKrupp, deve inaugurar em 2010 a Companhia siderúrgica Atlântica (CSA), no Rio de Janeiro, onde produzirá 5 milhões de toneladas de placas de aço.
Faltou água
O projeto antigo da Vale e Baosteel foi abandonado, em novembro do ano passado, depois que os órgãos ambientais do governo do Estado consideraram o projeto impróprio para a região. A alegação foi de que não haveria água suficiente para suprir as necessidades de uma planta industrial como uma siderúrgica com capacidade para produzir 5 milhões de toneladas, numa primeira fase, e mais 5 milhões de toneladas numa segunda etapa.
Barbosa destacou a importância da CSU para a mineradora. "A companhia já tentou viabilizar, com a Baosteel, uma planta deste tipo, e não foi possível, mas agora a situação é diferente, e a Vale continua buscando parceiros para o projeto", explicou.
O diretor de pelotização das usinas do complexo de tubarão, Felipe Guardiano, explicou que o projeto da CSU ainda está na fase de engenharia. "Não temos mais detalhes. Sabemos que é um projeto diferente do anterior, com características diferentes e que, por isso, a companhia acredita que será possível a sua implantação em Ubu", explicou.
Mineradora planeja retomada de usinas
Embora reconheçam que a demanda por minério de ferro está muito abaixo dos níveis registrados no ano passado, os executivos da Vale disseram ontem que a procura por metais está voltando a crescer e deverá estimular a produção da empresa no segundo semestre, espera o diretor de metais ferrosos, José Carlos Martins.
O aumento das vendas para a China - o país foi o único comprador de peso a aumentar as compras, em 42% no segundo trimestre deste ano - já permitiu que a mineradora reativasse mais duas usinas de pelotização em Tubarão.
"Agora, cinco usinas estão em operação, e esperamos, no segundo semestre, reativar a produção nas outras duas", explicou o diretor de pelotização do complexo de Tubarão, Felipe Guardiano.
Ele lembrou que, apesar da crise mundial, que provocou uma redução drástica na venda de minério desde o final do ano passado, a Vale manteve os projetos de investimento em Tubarão.
"As obras da oitava usina continuam, e hoje 850 pessoas trabalham no canteiro de Tubarão", ressaltou Guardiano.
A empresa manteve também os investimentos no porto, que receberá, nos próximos meses, dois novos carregadores de navios.
Além disso, está sendo feito o enclausuramento das correias transportadoras e a construção das barreiras de contenção de partículas.
"No Ocidente, não existe melhor país para se investir em siderurgia do que o Brasil"
José Carlos Martins - Diretor de Ferrosos da Vale
"É bom lembrar que a CSU viabilizará outros investimentos na região de Anchieta"
Guilherme Dias - Secretário de Desenvolvimento
91% de partículas
é o nível de concentração de partículas totais em suspensão no ar, na região de Ubu e de Mãe-Bá, além do limite estabelecido pela legislação ambiental.
5 milhões
de toneladas de placas de aço por ano é a capacidade de produção da siderúrgica que a Vale pretende instalar em Anchieta e que deverá começar a produzir a partir de 2014.
Novela dos chineses
Início. No dia 24 de agosto de 2007, executivos e técnicos da estatal chinesa Baosteel e da Vale estiveram em Ubu, Anchieta, para ver de perto a área onde seria construída uma nova usina siderúrgica no Estado. Eles foram acompanhados pelo secretário estadual de Desenvolvimento, Guilherme Dias.
Pompa. Com muita pompa e apresentação de grupos de congo, executivos da Baosteel e da Vale, incluindo o presidente da companhia brasileira, Roger Agnelli, acompanhados pelo governador Paulo Hartung e pelo prefeito de Vitória, João Coser, participaram a inauguração do escritório da nova empresa, a Companhia Siderúrgica Vitória (CSV), localizada num prédio de escritórios na Enseada do Suá, em Vitória.
Empresa. O projeto era de que a CSV entrasse em operação em 2011, depois de receber investimentos em torno de US$ 5 bilhões. Outros US$ 500 milhões seriam investidos num terminal portuário com calado que poderia chegar a 30 metros e que poderia receber navios com capacidade para transportar 450 mil toneladas.
Estado do aço
Ferro. Apesar de não ter nenhuma mina de minério de ferro, o Espírito Santo tem dez usinas de pelotização e uma siderúrgica.
Vocação. Os projetos, no entanto, indicam que a vocação siderúrgica do Estado está consolidada. Além da usina da Vale em Ubu, o grupo Ferrous pretende construir uma unidade semelhante em Presidente Kennedy, também no Sul do Estado. O grupo ArcelorMittal já manifestou intenção de novos investimentos no país.
Questões ambientais
Ambiente. No dia 27 de novembro do ano passado, o governo do Estado, por meio da Secretaria do Meio Ambiente, anunciou que, devido à falta de água e em função do excesso de partículas em suspensão na região, o projeto de instalação de uma siderúrgica em Ubu estava inviabilizado.
Justificativa. A justificativa dos técnicos que elaboraram os estudos ambientais iniciais é de que toda a água que abasteceria a siderúrgica, inclusive para o processo de resfriamento, seria fornecida pelo rio Benevente e seria insuficiente para atender à planta industrial, ao setor agrícola dos municípios vizinhos e às necessidades da população urbana.
Ar. Além disso, devido às usinas da Samarco já instaladas na região e à poeira da área rural, o nível de suspensão de partículas no local está muito acima do permitido, inviabilizando mais um projeto que elevaria em muito a emissão de partículas no ar.
Mudanças. Para o secretário de Desenvolvimento, Guilherme Dias, a situação já mudou: "A Samarco adotou medidas para reduzir a emissão de partículas, este é um fato. E a produção da siderúrgica da Vale será a metade da que era pretendida pela CSV e, portanto, precisará de menos água no processo".
Fonte: Jornal A Gazeta.